O neto do Jardel

março 13, 2017 admin Uncategorized 0 comments

Meu avô, Jardel Almeida era uma ótima peça. Mas ele não era tarefa simples.

Nascido em cidade pequena com uma série de irmãos, foi fazer a vida por aí, conheceu o mundo e voltou cheio de histórias para contar, desde histórias do seu tempo no Tiro de Guerra, até as palhaçadas que aprontavam os pilotos da extinta VASP em tempos menos politicamente corretos.

Dava gosto de ouvir ele contando lorotas na beira do fogão. Meu maior repertório de palavrões veio daí.

É dele a expressão que dá nome ao Escuta o Cheiro. Provavelmente deturpando com malandragem o que todo mundo diz sem pensar quando entra na cozinha logo antes do almoço: “olha esse cheiro…!” Claro. Se cheiro pode ser visto, por que não pode ser ouvido?

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Como não era raro ele ser flagrado assumindo as panelas (por exemplo enquanto passávamos a manhã na praia), as pérolas como essa eram mais do que frequentes. Eram um espetáculo à parte que harmonizava muito bem com as porções generosas e muito bem temperadas de cozidos, ensopados, moquecas e o que mais a criatividade mandava.

A maioria das frases que ele cunhou são imprópria para menores. As outras, impróprias para crianças e adultos igualmente. Eu que estava quase adolescendo quando convivi mais com ele, achava todas o máximo, mesmo que eu ainda não tenha criado coragem de usá-las no meu dia a dia.

O café que dormiu na garrafa térmica, por exemplo, era um cafézinho filhadaputa. O garçom desatencioso era invocado ao som de “Ô masca-bosta”, que ele falava rápido e mal pronunciado para não arrumar (muita) confusão.

As outras, eu não dou conta de escrever (depois de umas cervejas, eu acabo incorporando ao léxico, não tem jeito).

Uma ou outra confusão na vida era inevitável. Boêmio, ele entornava grandes doses de Campari e se o bar tivesse um piano juntando poeira, ele lá dedilhar. Dormir cedo? Sem chance.

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Foi um ótimo mau exemplo. Eu, meus irmãos e primos tivemos as melhores risadas quando os adultos iam para o bar e o vô continuava a pedagogia da noite.

A família sempre relata que meu avô era um homem de coração enorme e não pensaria duas vezes em tirar o próprio casaco para abrigar um parente ou um amigo. Em seu velório, não faltou quem viesse agradecer e relembrar aquele episódio em que meu avô atravessou o estado para emprestar um dinheiro não solicitado (mas muito bem vindo), ou o ombro amigo durante um período difícil.

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Como eu disse, ele não era tarefa simples. Era um bom malandro. Mas ao mesmo tempo, era um ótimo malandro. Quer saber, talvez o melhor de todos eles!

A cada terceiro domingo do mês, eu me lembro do meu avô e de algumas de suas histórias sensacionais. Essa história de encontras os amigos para ouvir samba, beber e jogar conversa fora a tarde inteira é uma justa homenagem.

Ele ficaria muito orgulhoso.

Mas ía dar trabalho no final do dia.

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Por Felipe Tazzo, escritor, fotógrafo e neto do Jardel

 

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