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por Thiago de Souza especialmente para o Projeto Escuta o Cheiro



“Fá tempo que piove qua, Gigi...” e como faz, dia 06 de agosto de 1910 nascia em Valinhos João Rubinato (na verdade não foi bem esse dia), o inesquecível e agora quase centenário Adoniran Barbosa.

Esse figura sintetizava todos os elementos artísticos possíveis em uma pessoa. Era compositor, sambista, ator e comediante. Fazia arte até quando era marmiteiro.

Nunca foi "habitué" na Escola, até em razão de trabalhar desde muito cedo, fato que motivou a adulteração de sua certidão de nascimento para que pudesse "jambrar" antes do permitido.

Dono de uma série de frases célebres, sobre a escola da vida disse "A matemática da vida lhe dá o que a escola deixou de ensinar: uma lógica irrefutável. Se havia fome e, na marmita, oito bolinhos, dois lhe saciariam a fome e seis a dos clientes; se quatro, um a três; se dois, um a um".

Adoniram compunha, cantava e interpretava.

Interpretava São Paulo em sua essência, ou seja, essência de uma terra de gente diferente, incontáveis sotaques e origens.

Sem esquecer de Vadico, Geraldo Filme, Madrinha Eunice, Carlão do Peruche, Osvaldinho da Cuíca, Jorge Costa, Zeca da Casa Verde, Seo Nenê da Vila Matilde, Dionízio Barbosa, Eduardo Gudin, Paulo Vanzolini e tantos outros expoentes do samba paulista, não é exagero dizer que Adoniran foi o interlocutor do gênero para o resto do Brasil e do mundo.

Em uma ocasião na Itália, depois de escutar saudosa maloca em língua local e, ao dizer que essa música era de um compositor brasileiro de uma cidade próxima de Campinas, meu querido amigo Gino Santini rebateu dizendo que aquela música era sim - Italiana e muito antiga. Depois descobri que algumas outras canções de Adoniran foram lá vendidas e, assim como se fazia no Brasil com os famosos hits americanos dos anos 60, versões adaptadas foram produzidas e fizeram considerado sucesso.

Fez parcerias memoráveis, Vinicius de Morais (que esqueceu-se que São Paulo era o túmulo do samba pelo menos por alguns instantes), Originais do Samba “boa noite mariposis, boa noite lâmpidis”, Elis Regina, Clementina de Jesus, Carlinhos Vergueiro, Gonzaguinha, Demônios da Garoa, e por aí vai.

É redundante dizer que cantava e contava como poucos o cotidiano Paulista, mas algumas passagens são especiais pra mim. Exemplo disso, meu avô Lazinho participou da desapropriação da favela do Vergueiro, fato cantado no samba “Despejo na Favela” e que o emociona até hoje quando relembra.

Dá pra passar o dia falando e cantando Adoniran, mas o que mais me impressiona desse cara especial é a capacidade que ele tinha de transformar o simples e as vezes trágico cotidiano na mais bela e lúdica fantasia.

Saudoso Maloqueiro!
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