nov
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Na passagem de ano de 2008 para 2009 tive o privilégio de conhecer um lugar cheio de encantos e de muito Axé, chamado Pouso da Cajaíba, próximo a Paraty/RJ.
Desde que cheguei percebi que era um lugar diferente, mesmo sem saber exatamente a razão para aquele sentimento.
Entre trilhas, boas ondas e uns goles de cachaça, tive a oportunidade de conversar com um Sr. muito simpático e boa praça chamado Alfeu que me contou um pouco sobre aquela península e sobre sua família.
Um amigo que participava da conversa perguntou a ele a razão do nome Pouso da Cajaíba e eu, prontamente, como típico advogado de fogo, mesmo não tendo a mínima ideia do que se tratava, mostrei enorme segurança respondendo que o nome teve origem numa ave migratória chamada Cajaíba, e que por ali fazia seu pouso sazonal.
Muito educado e com um olhar surpreendido com minha propriedade ao responder mesmo sendo aquela asneira, Seu Alfeu sorriu e falou que não era bem isso.
Cajaíba é uma árvore que é conhecida por gerar a fruta pão, e que o “pouso” dizia respeito ao pouso dos navios negreiros que, antes de aportar em Paraty para vender os Escravos, ali permaneciam pelo período suficiente para que os Homens e Mulheres que eram trazidos se recuperassem da extenuante viagem e ganhassem algum peso antes de sua derradeira jornada.
Fiquei quieto e até confesso meio perplexo com a maneira simples, desprovida de raiva ou agruras que Seu Alfeu me contou sobre a origem do lugar, isso, pois, se fosse comigo talvez reagiria diferente, talvez.
Perguntei se ele sempre viveu lá no Pouso, e ele me respondeu que sim.
Contou-me ainda sobre seu bisavô.
Cananéia era um Negro reprodutor, feito nos exatos moldes de um Garanhão.
Teve algo em torno de 30 mulheres fixas, fora quando seu proprietário o “alugava” para emprenhar alguma outra escrava.
Não há registros de quantos filhos Cananéia teve.
Mas o Forte Negro de linhagem nobre brigou com o tempo e envelheceu.
Após tantos anos de serviço e depois de ter gerado tanta renda a seu Dono, Cananéia esperava algum reconhecimento do senhor, e o teve.
O abastado dono de Cananéia colocou-o em um barco juntamente com suas 30 e tantas mulheres com a promessa de que os levaria de volta pra África.
Mar adentro, partiram.
Ocorreu que, após poucas horas após a partida, não surpreendentemente, o generoso senhor mudou de ideia e, ameaçando seus passageiros, obrigou-os, um a um a saltar em alto mar.
Yemanja levou boa parte de suas esposas, mas entendeu que aquele Negro de linhagem pura ainda tinha outras coisas pra fazer neste plano e o poupou, deixando em sua companhia cinco de suas.
Cananéia chegou a terra e com suas esposas fundou a Cidade que até hoje leva seu nome.
Seu Alfeu, claro me deu uma dica para identificar um descendente de Cananéia. Disse-me que todo Negro que leva o Nascimento no nome e que tenha o queixo grosso é da linhagem de Cananéia.
Não tenho o queixo grosso, mas levo o Nascimento em minha alma.
Guardo com muito carinho as palavras do Sr. Alfeu, esperando revê-lo.
por Thiago de Souza.
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